Comércio entre Brasil e UE pode crescer com Brexit, diz analista

 

Por Laís Martins

Desde de 2016, as discussões em torno da saída do Reino Unido do bloco da União Europeia, o famoso Brexit, tomam conta do noticiário internacional. Naquele ano, houve um plebiscito em que  a 52% dos britânicos votaram pela saída.

Contudo, mesmo com a votação, a data do divórcio foi adiada várias vezes. Inicialmente, a separação aconteceria em março de 2019.

O que está acontecendo no Parlamento agora?

Desde que assumiu o cargo de primeiro-ministro britânico, em julho de 2019, Boris Johnson acumula atritos com o Parlamento. O maior deles aconteceu em setembro, quando viu 21 dos seus aliados do Partido Conservador votarem a favor  da lei que impede o acontecimento de um Brexit sem acordo até dia 31 de outubro.

Com 329 votos a favor, agora o governo britânico deve apresentar um acordo para a União Europeia até 19 de outubro. Entretanto, se não acontecer, a saída do bloco pode ser adiada para 31 de janeiro de 2020.

Vale lembrar que o texto da lei ainda será apreciado pela Câmara dos Lordes, órgão equivalente ao Senado brasileiro.

Nova eleição

Com o resultado, Johnson anunciou que convocará eleições gerais, que ocorreriam apenas em 2002, para 15 de outubro. Essas ocorreriam em 2022.

O que acontece se ocorrer um Brexit sem acordo?

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), um Brexit sem acordo custaria ao Reino Unido pelo menos US$ 16 bilhões anualmente em perdas no comércio com a União Europeia.

Segundo a Agência Brasil, o setor automotivo seria o mais afetado, perdendo cerca de US$ 5 bilhões em comércio. Exportações de roupas e produtos têxteis cairiam em cerca de US$ 2 bilhões.

Na visão de Jefferson Laatus, estrategista-chefe da Laatus, grupo de educação profissional voltada para a formação de Traders, a possibilidade dos acordos dos países da UE com o Reino Unido serem instintos é grande. “Hoje existe um livre comércio entre todos os países da UE. Sem um acordo, há o risco de todas as portas do bloco se fecharam ao Reino Unido”, afirma.

Laatus ainda recordou que até fevereiro deste ano, ao todo, 42 empresas que tinham sua sede no Reino Unido saíram do país. “Com esse radicalismo adotado, acredito que ainda mais empresas sairão do Reino Unido”, alertou.

Entretanto, o estrategista-chefe pontuou que há um lado positivo para o Reino Unido. Em agosto, o presidente Donald Trump manifestou apoio ao primeiro-ministro britânico e também sinalizou que os Estados Unidos têm interesse em fazer um acordo com o Reino Unido, o que tornaria os dois países potentes comercialmente.

E um Brexit com acordo?

“Há essa possibilidade, mesmo que pequena, por conta da posição adotada por Boris. Nesse cenário, pode acontecer um acordo de livre comércio entre os países. Com isso, o Reino Unido não teria tantas perdas”, opina.

E se não houver a saída?

“Na minha experiência de mercado, o Brexit é inevitável. O Boris [Johnson] se mostra muito entusiasmado com isso e ele está com ferramentas para que a separação aconteça. Com as novas eleições, por exemplo, parte do Parlamento vai cair e ele, provavelmente, voltará a ter maior apoio lá dentro”, explica Laatus.

Ele ainda pontuou que, se não ocorrer a saída, o Reino Unido continua como membro da UE. Assim, as negociações seguiriam normalmente. “Talvez ameaças de outras empresas e países aconteçam, mas nada que cause um impacto de longo prazo no mercado mundial”, compartilha.

Possíveis impactos nas bolsas

O mercado já se mostra muito estressado quando algo sobre o Brexit vem à tona. Se as eleições propostas pelo primeiro-ministro realmente acontecerem, os mercados provavelmente sentirão muito no primeiro momento.

“Há um medo do mercado porque a UE já vem de uma situação frágil. Alguns países como a Espanha já tiveram problemas que abalaram a UE [refere-se ao movimento separatista da Catalunha]. A preocupação é que, com a saída do Reino Unido, talvez outros países também queiram sair”, avalia Laatus.

A rota do fluxo de capitais da União Europeia pode ser alterada com a separação. Em momentos instáveis, os investidores buscam a segurança que é representada pelo Tesouro estadunidense, o ouro e algumas moedas mais influentes no mercado, como o dólar.

Possíveis impactos para o Brasil

O Brasil é um pequeno parceiro comercial do Reino Unido. Em 2017, segundo o Observatory of Economic Complexity (OEC – Observatória de Complexidade Econômica), a importação geral do Reino Unido de produtos brasileiros representou 0,49% do total, um volume de US$ 3,02 bilhões.

Em contraste, as exportações do Brasil para o bloco da UE, segundo o Ministério da Economia, representaram US$ 42,11 bilhões em 2018. Esse valor equivale a 17,6% das importações do bloco.

“O Brasil está fora dos países que serão de fato impactados pelo Brexit. Enquanto possuímos um comércio mais expressivo com a UE, o Reino Unido é pouco significante em nossa economia. Então, acredito que o Brasil pode até se dar bem nisso. Se a União Europeia parar de consumir alguns produtos do Reino Unido, o Brasil pode ser uma boa opção para importação”, opina Laatus.

O que devo fazer com meus investimentos nesse momento?

Como explicamos, o Brexit não afeta tanto o mercado brasileiro. No primeiro momento, se as eleições propostas por Johnson acontecerem, a bolsa brasileira deve enfrentar volatilidade por ainda sermos um país emergente e mais instável.

Entretanto, essa futura movimentação será passageira. Segundo Laatus, o investidor deve se atentar a acontecimentos mais relevantes no longo prazo para o mercado nacional, como a reforma da previdência.

 

Publicado originalmente em Space Money, 05/09/2019.